domingo, 23 de outubro de 2016

A Música como Impulso para a Liberdade

Texto elaborado por Bettina Happ Dietrich, participante do curso Antropomúsica, 2010 

Artigo de Conclusão de curso

Este tema é absolutamente novo para mim. Ele se abriu através deste
curso, Antropomúsica, mas na verdade é algo que já estava muito tempo
adormecido dentro de mim, algo, que permeava o meu sentir de forma muito
vaga. Portanto, este artigo representa a tentativa de trazer o assunto um pouco
mais para a consciência, é um começo, um portal para um novo caminho, não
apenas um trabalho para concluir este curso. Tentarei esclarecer, compreender
e concretizar algumas coisas que observei, senti, estudei. Com certeza haverá
muitas perguntas não respondidas e um longo caminho de aprofundamento.

Introdução

Quando observamos os acontecimentos da história, podemos reparar
que a música sempre esteve presente em situações de repressão, de guerra,
de grande sofrimento, de revolução, de rebeldia. Seja nas revoluções, no
movimento dos escravos, na época de repressão no Brasil e em outros países,
no movimento "Flower Power", etc. A música sempre consolava, impulsionava,
encorajava e fortalecia. Poderia até deixar os "inimigos" com medo. Mas não
precisamos olhar somente na história para observar este fenômeno. Se
pensamos em nossa própria vida encontramos este mesmo fenômeno, só
precisamos nos lembrar da nossa adolescência. Quantas vezes a música era
nosso consolo, nosso forte, aquilo que expressava que sentíamos, o que nos
tocava, o que acreditávamos e o que vivíamos.
Quando entramos em crise, a música pode ser uma âncora e um
impulso para fazer mudanças e/ou nos equilibrar. Através da música podemos
deflagrar processos de cura, de auto-superação. Libertamo-nos dos nossos
próprios impedimentos, das nossas limitações, deixamos para trás o que não
serve mais. Podemos nos superar e superar situações difíceis e hostis com a
ajuda da música. Descobrimos assim a música como um caminho de cura, de
cura para o indivíduo e para o social.
Com estas reflexões podemos compreender o conceito da liberdade de
forma ampliada. Libertar-se de situações de repressão, libertar-se das próprias
dificuldades, libertar-se dos próprios impedimentos, libertar-se das doenças.
Compreendemos a liberdade como um processo de transformação e de
superação em vários âmbitos.
Eu dou aula de música numa instituição que atende pessoas com
deficiência. Lá se mostra claramente a atuação construtiva que a música pode
ter.Todos vivenciam a aula com muita alegria e chegam muitas vezes em
resultados surpreendentes. Uma das atendidas não se comunica verbalmente,
ela sabe falar, mas não se utiliza disso. Nas aulas ela sempre canta, participa
em todos os exercícios e fica muito feliz com isso. Teve momentos nos quais
ela conseguiu levar um pouco dessa maior abertura para o dia a dia e começou
a se expressar verbalmente.
Um outro atendido que vive constantemente na periferia - não consegue
se concentrar, não tem limite nenhum - descobriu a Kantele. Através do tocar
ele pôde ter a vivencia da concentração, do centramento e mesmo na vida
diária está agora mais contido.
Eu poderia citar vários destes exemplos. Olhando para eles a música até
parece ter uma atuação mágica. Mas o que é que acontece? O que é a
música? Porque ela atua tanto? De onde ela vem?

A Música como ponte

Segundo Schopenhauer a música tem uma atuação diferenciada das
outras artes. Ele diz que todas as artes precisam atuar através da
representação, precisam se formar sendo imagens da vontade. A música não.
O tom já é a expressão da própria vontade. Se ouvimos o tom, ouvimos a
vontade da natureza, percebemos o ser do cosmos que se encontra na
natureza e dentro de cada um. A música atinge diretamente a alma, a nossa
vontade, não há filtro. A luz e os conceitos passam pelo filtro da razão, o som
não, ele nos penetra, preenche totalmente e sobe também das próprias
profundezas. O som está diretamente ligado a nossa essência e a essência do
mundo. Rudolf Steiner coloca que o som é a alma das coisas mesmas, que
estremece e nos fala em forma sonora. Em todas as coisas, nos metais, na
madeira, nas minerais, nas plantas, em tudo que existe no mundo vive algo de
música que se calou. "Uma lembrança que o mundo foi feito da palavra e do
som".(Karl von Baltz " Rudolf Steiners musikalische Impulse",P.181)
Rudolf Steiner parte da premissa que, como diz o prólogo do evangelho
segundo João, "No princípio era o verbo...." Tudo no mundo físico tem como
essência um Tom espiritual, o próprio homem nas profundezas do seu ser é um
Tom. Esta premissa encontra-se nos mitos, epopéias e gênesis de muitos
povos. A criação do mundo segundo a tradição oral Guarani termina assim:
" ...e sons andantes cantarão vida, cada qual em seu tom." Eles falam da
"linhagem-linguagem-humana".
Paracelsus expressa isto da seguinte forma: " Os reinos da natureza são
as letras e o ser humano é a palavra...."
Portanto podemos dizer que, através do tom, da música, o ser humano
pode se conectar, ou se religar com a sua própria essência. Existe uma história
que eu gostaria contar em relação a isto:
"A Canção do Homem"
"Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, segue para
 a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que aparece a
"canção da criança".
Quando nasce a criança, a comunidade se junta e lhe cantam a sua canção.
Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e lhe cantam a
sua canção.
Quando se torna adulto, a gente se junta novamente e canta.
Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção.
Finalmente, quando a sua alma está para ir-se deste mundo, a família e
amigos aproximam- se e, igual como em seu nascimento, cantam a sua
canção para acompanhá-lo na 'viagem'.
Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção.
Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social
aberrante, o levam até o centro do povoado e a gente da comunidade forma
um círculo ao seu redor.
Então lhe cantam a sua canção.
A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o
castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.
Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem
necessidade de prejudicar ninguém.
Teus amigos conhecem a 'tua canção' e a cantam quando a esqueces.
Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes, ou
as escuras imagens que mostras aos demais.
Eles recordam tua beleza quando te sentes feio, tua totalidade quando estás
quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando
estás confuso."
Esta simples e bonita história retrata bem como podemos nos lembrar
do nosso propósito através da música, ela pode nos lembrar porque razão
estamos na Terra, qual é a nossa verdadeira intenção. Quantas vezes a
música certa na hora certa nos ajudou a voltar no nosso caminho? Muitos
devem ter tido esta vivência, e muitos já devem ter sentido o quanto isso toca
no mais íntimo da nossa alma.
Isto é possível, por que, segundo Rudolf Steiner, a música tem a sua
origem no mesmo lugar que o ser humano tem a sua pátria. A verdadeira
música é espiritual, ela abrange tudo, desde a criação do mundo até o futuro
desenvolvimento da Terra, e a música terrena é somente uma imagem, uma
sombra desta verdadeira música que preenche o mundo espiritual.
Sempre quando o homem vive no elemento musical ele se lembra da
sua verdadeira pátria, se percebe como um ser espiritual, ele percebe que
existe na Terra. No âmbito do som, da música, somos todos iguais, somos
todos irmãos, somos todos seres espirituais em desenvolvimento. A música
une, supera fronteiras e diferenças, ajuda-nos a superar a nos mesmos, a
música é a relação do homem como um ser anímico-espiritual consigo mesmo.
O meu eu, que é mera aparência se conecta ao verdadeiro ser e fala com ele.
Podemos nos lembrar que o outro sou eu também, mas que aqui na Terra cada
um mergulhou em um ponto, cada um "em seu Tom".

A música como força criadora

O espírito e a matéria no fundo são a mesma coisa, são iguais, só que
um está expandido e o outro concentrado, um é essência e o outro expressão,
aparência, imagem. Os tons são somente a expressão sensorial da verdadeira
música, não são a música, assim como o corpo não é a alma. A música se
encontra entre os tons, nos intervalos, ela se faz nas relações entre os tons,
naquilo que não ouvimos, esta é a parte espiritual. "Procurem ouvir o
inaudível!" é o convite, "Ouçam com o ouvido espiritual". E é nesse silêncio do
"espaço vazio" que a transformação se faz, que ocorre o processo. E o
processo é a essência, a música é o portal para acessar este plano. Tudo
começa no inaudível. O músico ouve primeiro no seu interior, é ali que ele
encontra os tons. A pessoa que escuta, recebe a música dentro de si, onde ela
novamente se torna inaudível. Ao emitir um som manifesto, densifico algo da
essência sonora, ela morre quando sai de mim, se torna físico, se torna
movimento. O outro recebe esta onda e ressuscita o som dentro de si. Para isto
serve o ouvido, para tornar o audível inaudível novamente, e assim ressuscitar
o som. Pois o som somente vive dentro, no íntimo da alma, fora ele em si não
existe, fora ele é movimento.
Em um dos módulos da Antropomúsica, Marcelo nos fez uma pergunta
interessante: "Se na floresta caiu uma árvore e não teve ninguém que
percebeu, que ouviu, houve som?" Chegamos na conclusão que não, mas
houve movimento.
Neste sentido o som, a música na Terra é algo absolutamente humana,
ela vive dentro dele e se auto-cria dentro dele, e o cria , como também cria o
mundo todo. Tudo existe por meio do ouvir:
"Antes da existência do mundo, já existia o ouvir, o ouvir do mundo.
O ouvido humano hoje só consegue perceber tons do plano físico. Isto no
fundo é um último resto daquilo que em tempos remotos fluía para dentro do
homem através do ouvido. Antigamente fluíam através do ouvido os
movimentos poderosos do universo inteiro. E como ouvimos hoje a música
terrestre, ouvíamos a música das esferas. E como hoje vestimos as palavras
em tons, assim vestia-se em música das esferas a palavra cósmica, aquela de
que fala o evangelho de João como a divina palavra cósmica, o verbo, o logos.
E assim como o homem hoje forma o ar através da sua fala e do seu canto,
assim criaram, as palavras divinas e a música divina, as formas.
Assim surgiu do logos o mundo, as formas e o ser humano.
A nossa mãe é o ouvido!" (Rudolf Steiner)
Podemos observar isto em escala muito menor quando se faz a
experiência dos "chladnische Klangfiguren" (figuras sonoras de Chladne?):
Coloca-se um pouco de areia em cima de uma placa de metal, que está
suspense num suporte. Agora passa um arco de violino no canto da placa.
Ouve-se um som e pela vibração a areia se ordena em figuras geométricas.Isto
acontece também com água quando está sendo exposta a um som. A música,
o som, se torna movimento, ritmo, forma no mundo físico:
"A música e o ritmo não são mais que espelhos das estruturas cósmicas,
constituindo, por isso, uma importante via para nos reatarmos com nossas
origens mais distantes e remotas. Antes de tocarmos ritmos, os ritmos nos
tocaram.
Todo o universo é vibração...
A matéria não é 'sólida', nem é sem movimento e vibração; tudo vibra
ritmicamente. Se olharmos nossa sólida pele num microscópio eletrônico,
descobriremos que existe um mundo de aparência aquática que se move
ritmicamente numa interminável dança da vida...
Tudo se dissolve em formas e vazios, em pautas e estruturas...
Nas palpitações do nosso coração, no ato respiratório ou no andar regular,
todos nos possuímos a capacidade expressiva de impulsos perfeitos num
equilíbrio eterno. Nossa missão consiste em nos unirmos a esse pulso e em
nos acompassarmos plenamente com o tempo presente."( Carlos D. Fregtman,
"O Tao da música")

A atuação da música no homem terrestre

Nos ouvirmos com o corpo inteiro. Os nervos, assim chamados motores,
como os ossos também, estão interligados com a audição . Os nervos do
sistema piramidal formam uma grande "lira" nas costas. Eu ouço e isto atua na
minha laringe. Existe uma larga pesquisa de como atuam os sons e palavras
nas estruturas , nos cristais das águas. Dependendo de sons harmoniosos ou
não os cristais são harmoniosamente estruturados ou não; dependendo da
construtividade da palavra os cristais se formam correspondentes. Isto
impressiona muito, pois o nosso corpo, assim como a Terra , se compõem de
grande parte de água e podemos observar aqui uma influência enorme sobre a
nossa saúde e a saúde do planeta.
É uma experiência muito estimulante, observar o que a música que
estou ouvindo faz com os ritmos do meu corpo...o que ela causa no meu corpo.
Assim como ouvirmos com o corpo inteiro, também falarmos e
cantarmos com o corpo inteiro. Através do nosso sistema respiratório todos os
outros sistemas são envolvidos, tanto a parte neurossensorial quanto a parte 
metabólico- motor. O processo respiratório continua atuando até no cérebro
onde causa o subir e descer do licor. O processo respiratório tem uma
influência direta sobre pensar, sentir e querer. Tudo o que o ser humano fala ou
canta é uma expressão do homem inteiro , ou poderíamos dizer uma síntese
da atuação em conjunto das capacidades anímicas. Porém a música se apoia
totalmente no sentir. O sentir pode se aproximar mais no lado pensamental e
assim criar as melodias, ou se aproximar mais ao querer e deixar surgir o ritmo,
ou se centrar mais em si mesmo criando as harmonias, mas mesmo assim a
música sempre continua vivendo no sentir.
É a partir do sentir, do sistema rítmico que o ser humano pode manter a
união, o equilíbrio, a integridade, a harmonia entre pensar querer e sentir, entre
corpo, alma e espírito. Encontramos aqui a chave para a saúde física, anímica
e mental do ser humano. É neste âmbito onde podemos criar este "espaço
vazio" que proporciona a possibilidade para uma transformação, é onde podem
acontecer os processos. No âmbito do sentir vivemos o presente, vivenciamos
cada momento. A nossa vontade, o que queremos, ainda não se realizou, está
vindo do futuro ao nosso encontro. O que pensamos já foi, já morreu, era vivo
no passado, já concluímos.
Por isto o sentir, o momento presente, é a nossa chance para atuar,
para transformar, para mudar, para ousar...Isto acontece se conseguimos criar
uma abertura para isto, o "espaço vazio" , um "palco". A música é capaz de
criar esta abertura, pois quando eu faço música eu me elevo, eu me esqueço,
eu me supero , eu posso me entregar, eu sirvo a algo maior.
Eu gostaria de ousar um pouco, mudando algumas palavras de um poema de
Christian Morgenstern e dizer com ele:
Nas poderosas asas da música
eleva-te sobre as névoas do desgosto
até tornares-te pequeno para ti mesmo
com todo o teu sofrer;
até te tornares grande a cima de ti mesmo
e todo o teu sofrer.

Conclusão

As perguntas que foram lançadas no começo deste artigo não foram
respondidas de forma plena. Como já disse é um começo. As idéias colocadas
servem para dar um direcionamento para uma pesquisa maior. Existem muitos
aspectos que nem foram mencionados.Tenho consciência que toquei apenas
na superfície dos assuntos, e que ainda tenho um longo caminho pela frente,
mas é o que me move...minha força motriz.
Ainda há tantas perguntas em aberto, como por exemplo:
O que acontece nas pessoas que não são tocadas pela música ? Isto existe ?
Por que existem pessoas que não gostam de música ? O que acontece com
uma cultura que se abstêm da música ? Qual será a atuação das músicas
modernas futuramente ? Quais são os seres que atuam nestas músicas ?
Como se liga o impulso da música com o grande ser da evolução humana, com
o Cristo ? etc...
Existem tantas perguntas que ainda nem sou capaz de formular ou de
reconhecer, mas estou bem tranquila, pois o meu caminho (profissional) na
música está bem no começo e irei "caminhando e cantando e seguindo a
canção" passo a passo.